Hoje a gente abre os problemas de vocês em cinco camadas e descobre onde cada um encaixa.
INA072 · Empreendedorismo · Prof. Pedro Henrique Mariosa
Entreprendre: pegar entre as mãos, assumir. Empreender é assumir o risco de algo que ainda não deu certo.
Ação empreendedora cria o jogo. Ação estratégica joga o jogo que já existe.
O banco de problemas da turma. É dele que saem as equipes.
Banco do Brasil, Bayer e Motorola confirmados. Quem passa vai para a pré-incubação de seis meses.
Oito das vinte e quatro são deslocamento: rua sem asfalto, mototaxista que não aparece, embarque no porto, ambulância que demora. Logo atrás vêm sete de conectividade e sistema fora do ar. Duas coisas, e as duas são infraestrutura que ninguém mede.
Bioinsumos e Biomateriais não recebeu nenhuma das vinte e quatro dores. Ninguém desta sala olhou para o roçado, para o pescado e para a floresta na hora de escrever, e essa é a única banca que já tem patrocinador esperando proposta.
Finanças Sociais tem uma dor só, a do caixa vazio que obriga a atravessar para Tabatinga. Artes e Cultura tem duas, as duas sobre o festival. São os três eixos onde a concorrência na banca vai ser menor.
Eixo vazio é vaga aberta. Quem quiser mudar de eixo hoje, muda: a ficha de anatomia aceita qualquer um dos seis.
A ementa é do PPC do curso e não muda. O que muda é que aqui ela não vai ser cumprida com exemplo de livro: vai ser cumprida com as dores que vocês trouxeram de Benjamin Constant.
Quando um quarto de uma sala aponta a mesma trava, isso deixa de ser azar individual. Vira indício de problema crônico do lugar — e problema crônico é o que sustenta negócio, porque não some sozinho.
Patrocínio da Motorola. Conectividade, dados, tradução e língua. Sete das vinte e quatro dores caem aqui.
Patrocínio da Bayer. Milho, biocouro, biotecido, revestimento.
Em conversa com Embrapa e Forest. Barco, frete, estrada, a margem que o transporte come.
Sem patrocinador ainda, e provavelmente o tema mais latente daqui.
Festival, artesanato ticuna, música. Cultura vira cadeia quando alguém organiza contrato e preço.
Crédito, poupança e pagamento para quem o banco não atende. Aqui isso tem cara de caixa vazio e de saque em Tabatinga.
Uma pessoa com nome, ofício e lugar. Não "os moradores".
Toda semana? Uma vez por ano? Dor rara não sustenta negócio.
Em reais, horas ou risco. Se ninguém mede, ninguém paga.
O que a pessoa já inventou: caderno, grupo de WhatsApp, um primo que resolve.
Onde exatamente quebra. É aí, e só aí, que uma solução entra.
A gambiarra é a prova: quem gastou tempo inventando jeito torto provou que a dor é real.
Ficha pela metade é problema pouco investigado, não eixo errado. Onde houver três fichas, já existe equipe.
Inovar é juntar de outro jeito o que já existe: produto novo, método novo, mercado novo, fonte de insumo nova, forma nova de organizar. Nenhuma delas exige inventar do zero.
O empreendedor não espera a musa: ele varre mudanças em busca de oportunidade. O inesperado, a incongruência entre o que se espera e o que acontece, a mudança demográfica e a mudança de percepção. Onde algo mudou, alguma dor ficou mal resolvida.
Domínio técnico, jeito de pensar e motivação. As duas primeiras a faculdade dá. A terceira é a que decide, e ela vem de trabalhar num problema que te interessa de verdade.
Reparem no que isso faz com a nossa dinâmica: as vinte e quatro dores são exatamente o rastro de coisas que mudaram na cidade e ninguém reorganizou ainda.
Um problema bem formulado é empírico, delimitado e verificável: dá para observar, cabe num lugar e num período, e alguém consegue dizer se a resposta é sim ou não. "A cidade é mal servida" não é problema de pesquisa. "Quantos dias por mês o Manoel fica sem repor mercadoria na estiagem" é.
Afirmação que nenhum dado consegue derrubar não é conhecimento, é fé. Escrevam a frase que, se for falsa, faz vocês largarem o problema. Se não existe frase assim, vocês não estão pesquisando: estão torcendo.
Triangulação: a mesma dor vista por quem sente, por quem atende do outro lado do balcão, e por um registro que não fala — uma nota, uma foto, uma fila, uma planilha. Quando as três batem, é problema. Quando não batem, o interessante está justamente na diferença.
Nem toda prova pesa igual. Opinião vale pouco, declaração vale um pouco mais, comportamento observado vale muito, e dinheiro que a pessoa já gasta hoje vale mais que os três juntos. Subam a escada antes de escrever qualquer proposta.
Métrica de vaidade é a que só sobe e nunca muda decisão: curtida, presença, "todo mundo achou legal". Métrica acionável responde o que fazer em seguida. Se o número que vocês trouxerem não muda nada no projeto, ele não serve.
Aqui não existe amostra de mil pessoas, e não precisa. Estudo de caso serve exatamente para perguntar como e por que num contexto real que vocês não controlam. Cinco entrevistas bem-feitas em Benjamin valem mais que quinhentos formulários pela internet.
Traduzindo para hoje: a ficha de vocês vira evidência quando tiver uma pessoa com nome, uma contagem, um número em reais ou horas e uma frase literal. Sem isso, é palpite bem escrito.
Cada bolinha é o problema que uma equipe declarou hoje. Embaixo de cada cartão está o degrau da escada em que aquela ficha parou e os próximos passos para aferir — o que falta contar, medir ou ouvir até dia 25.
Ele foi procurar o que distinguia quem empreende e achou comportamento, não personalidade: buscar informação, correr risco calculado, persistir, planejar e monitorar. É dessa pesquisa que saíram as competências que o SEBRAE treina até hoje.
O empreendedor não acorda com a visão pronta. Ela se forma numa ida e volta entre o que ele entende do setor e as relações que ele tem. Quem conversa com mais gente enxerga mais longe.
A leitura brasileira insiste no mesmo ponto: empreendedorismo se aprende, e se aprende fazendo, com o entorno como sala de aula. Vocês têm tríplice fronteira do lado de fora da janela.
Ou seja: a pergunta certa não é se você nasceu com perfil. É qual desses comportamentos você ainda não pratica, e o que você vai fazer sobre isso até novembro.
A pessoa contrata um produto para fazer um serviço na vida dela. Quem entende a tarefa que o cliente quer resolver descobre concorrente onde ninguém via, e a alternativa dele quase nunca é outra empresa: é o jeitinho que ele já usa.
Empreendedor experiente não parte da meta e corre atrás de recurso. Parte do que tem: quem eu sou, o que eu sei, quem eu conheço. Perda aceitável no lugar de retorno esperado.
Nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o cliente. O trabalho é achar a hipótese que, se for falsa, derruba tudo, e testar essa antes de qualquer outra coisa.
Traduzindo para hoje: vocês abriram a dor na ficha de anatomia. Agora falta perguntar quem paga, o que essa pessoa já gasta, o que mudou, e qual é a aposta que pode derrubar tudo.
Nem sempre é quem sente. Diga quem assina o cheque, e por que essa pessoa e não outra.
Toda dor cara já tem concorrente, mesmo que seja um caderno, um primo ou uma viagem de barco.
Drucker de novo: que mudança na cidade, na lei, no preço ou na tecnologia abriu essa brecha agora?
Sarasvathy: quem vocês conhecem, o que sabem fazer, o que dá para testar sem dinheiro nenhum.
A coisa que, se for falsa, derruba tudo. Escrita como frase testável esta semana, não como opinião.
Qual competência de McClelland mais te falta hoje. É a única pergunta da ficha que é sobre você.
Ninguém defende a própria ideia. Cada um conta o problema em trinta segundos.
Não por amizade, não por quem senta perto. Por problema parecido.
Equipe menor não dá conta, maior não decide.
No fim, cada grupo diz em voz alta a dor que escolheu e quem está nela.
Faz as entrevistas e traz as frases literais.
Transforma a dor em reais, horas e risco.
Mantém a ficha e o documento vivos.
Fala com a banca. E troca, para todo mundo passar por isso.
Na autoavaliação vocês se deram nota em delegação. Na hora de dividir esses papéis, aquela nota vai ser cobrada.
Na próxima semana ainda dá para trocar de equipe e de problema. Depois do dia 25, não. É com esse problema que vocês vão até novembro, e é ele que a banca vai ouvir.